Apreensões milionárias, vendas clandestinas pela internet e casos de complicações médicas expõem a falta de controle sobre medicamentos vendidos sem registro no país.
Nos últimos cinco anos, as canetas emagrecedoras movimentaram cerca de R$ 9,5 bilhões na economia brasileira, impulsionadas pela crescente procura por tratamentos para perda de peso e pela consolidação desse tipo de terapia no mercado nacional. A projeção é que esse volume alcance até R$ 20 bilhões em 2026, acompanhando novas tendências de consumo e mudanças no comportamento do público. No entanto, a rápida expansão desse setor também trouxe um efeito colateral preocupante: o avanço do uso indiscriminado e do comércio ilegal, hoje considerado um risco concreto à saúde pública.
“Estamos diante de um problema grave de saúde pública. O crescimento do mercado ilegal dessas canetas coloca em risco a vida de milhares de pessoas que, muitas vezes, não têm dimensão do perigo que estão correndo”, afirma o Deputado Estadual Paulo Gomes.
A popularização das canetas abriu espaço para a atuação de esquemas clandestinos, com produtos sem registro sendo comercializados por redes sociais, aplicativos de mensagens, e-mails e até pelos Correios. Operações recentes conduzidas por Anvisa, Polícia Federal, Procon e vigilâncias sanitárias estaduais resultaram em apreensões milionárias e revelaram estruturas organizadas de venda irregular em diferentes regiões do país. Em algumas ações, os medicamentos eram camuflados em encomendas comuns para tentar burlar a fiscalização.
Reportagens da Gazeta do Povo e do G1 evidenciam a dimensão do mercado ilegal de canetas emagrecedoras: somente nas primeiras semanas de 2026, a Receita Federal apreendeu 13.321 caixas do produto na fronteira com o Paraguai, número superior ao registrado em oito meses de 2025 , sendo que os medicamentos já figuram entre os principais itens retidos na aduana e são vendidos livremente em lojas de Ciudad del Este, muitas vezes sem controle sanitário ou refrigeração adequada. Em paralelo, no Paraná, um motorista foi preso na PR-444 transportando cerca de 400 ampolas de tirzepatida escondidas em um caminhão; ele afirmou ter sido pago para levar a carga até Guarulhos (SP) e já estava na segunda viagem, sendo autuado por crime contra a saúde pública.
“Não se trata apenas de irregularidades comerciais. Estamos falando de crime contra a saúde pública. É fundamental reforçar a fiscalização e ampliar a conscientização da população”, ressalta Paulo Gomes.
Segundo reportagem do G1, o Paraguai já reconheceu oficialmente o comércio de canetas emagrecedoras falsificadas em áreas de fronteira, muitas delas destinadas ao mercado brasileiro. Esses produtos entram no país sem qualquer controle sanitário e são vendidos como alternativas mais baratas, apesar da origem desconhecida e dos riscos elevados ao consumidor. Diante desse cenário, a Anvisa proibiu a importação, comercialização e uso de canetas provenientes do Paraguai, destacando que elas não possuem registro no Brasil nem garantias mínimas de segurança, qualidade ou eficácia.
“Quando um produto entra no país sem registro e sem controle sanitário, o consumidor fica totalmente desprotegido. É inaceitável que a saúde das pessoas seja colocada em segundo plano por causa do lucro ilegal”, pontua o deputado.
A atuação da agência reguladora também se intensificou com a proibição da venda de tirzepatida de duas marcas e da substância retatrutida (fármacos de última geração para o controle glicêmico e peso), que vinham sendo comercializadas de forma irregular. De acordo com a Anvisa, esses produtos não contam com estudos clínicos aprovados no país e estavam sendo vendidos sem prescrição médica, o que amplia significativamente o risco de efeitos adversos. As medidas foram adotadas após a identificação de irregularidades e do aumento de notificações relacionadas ao uso inadequado dessas substâncias.
Os riscos à saúde associados ao uso indiscriminado das canetas não são apenas teóricos. Especialistas alertam que a utilização sem acompanhamento médico pode causar náuseas intensas, vômitos persistentes, desidratação, alterações metabólicas e sobrecarga hepática, além de quadros mais graves. Matéria publicada pela CNN Brasil destaca casos de pancreatite associados ao uso desses medicamentos, condição que pode provocar dor abdominal intensa, febre, vômitos, necessidade de internação e, em situações mais severas, complicações potencialmente fatais.
“O consumidor precisa entender que medicamento não é um produto comum. O uso sem prescrição e sem acompanhamento médico pode trazer consequências graves e até irreversíveis”, reforça Paulo Gomes.
Além dos efeitos colaterais já conhecidos, produtos falsificados ou manipulados ilegalmente apresentam um risco adicional: dosagens incorretas, contaminação e ausência total de controle farmacológico. Autoridades de saúde alertam que medicamentos adquiridos fora da rede regular podem conter substâncias diferentes das informadas no rótulo, ou até compostos desconhecidos, aumentando de forma significativa o perigo para quem faz uso desses produtos.
Embora o mercado legal de canetas emagrecedoras movimente bilhões de reais por ano, estimativas indicam que o mercado clandestino já movimenta centenas de milhões de reais no Brasil, operando à margem da fiscalização e explorando consumidores atraídos por preços mais baixos e promessas de emagrecimento rápido. O cenário amplia o desafio das autoridades e reforça a necessidade de ações integradas de fiscalização e informação.
“Precisamos agir com firmeza para combater o comércio ilegal e, ao mesmo tempo, investir em informação. A prevenção começa pela orientação clara ao consumidor”, conclui o deputado.
Diante desse contexto, órgãos como Anvisa, Procon e Ministério da Saúde reforçam que as canetas emagrecedoras devem ser utilizadas exclusivamente com prescrição médica e adquiridas em farmácias e estabelecimentos regularizados, com registro sanitário válido. A orientação ao consumidor é clara: desconfiar de ofertas em redes sociais, evitar compras por canais informais e denunciar a venda irregular. O avanço dessas terapias no Brasil evidencia um paradoxo: enquanto representam inovação e movimentam bilhões, também expõem fragilidades no controle e na informação, transformando o uso indiscriminado em um potencial problema de saúde pública.
